Cardeal Parolin: Igreja é companheira do Brasil, não uma potência estrangeira

O Cardeal Pietro Parolin durante a Missa pelo Bicentenário das Relações Diplomáticas do Brasil com a Santa Sé

No contexto das celebrações pelos 200 anos das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, presidiu, nesta sexta-feira, 23 de janeiro, a missa de ação de graças na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Na homilia, destacou que este bicentenário não deve ser visto como um ponto de chegada, mas como um novo limiar, capaz de renovar o compromisso comum em favor da dignidade humana e da paz.

Segundo o cardeal, trata-se de duzentos anos que ultrapassam a mera dimensão cronológica. Eles expressam, antes de tudo, um caminho espiritual e humano, profundamente inscrito na história e na fé do povo brasileiro.

Dois séculos de diálogo e construção de pontes

O Embaixador brasileiro junto à Santa Sé, Everton Vieira Vargas e sua esposa, durante a Celebração

Ao recordar as origens desse vínculo histórico, o secretário de Estado destacou que as relações entre Brasil e Santa Sé tiveram início com o reconhecimento, por parte do Papa Leão XII, do Império do Brasil, no ano de 1826. Desde então, uma sucessão de representantes pontifícios contribuiu para consolidar um diálogo marcado pelo respeito mútuo e pela cooperação.

Nesse percurso, lembrou o cardeal, a diplomacia da Santa Sé buscou constantemente construir pontes onde o mundo frequentemente ergue muros. Trata-se de um trabalho feito, muitas vezes, por meio de gestos discretos, palavras prudentes e decisões corajosas, que ajudaram a fortalecer laços entre povos e culturas.

“Desejamos agradecer por estes dois séculos de diálogo, respeito mútuo e cooperação paciente e fecunda, não apenas registrados nos documentos da história, mas sobretudo na carne viva de um povo que crê”, afirmou o cardeal.

A diplomacia da Igreja e sua natureza pastoral

Inspirando-se nas leituras litúrgicas e em recente discurso do Papa Leão XIV ao Corpo Diplomático, o cardeal Parolin explicou que a diplomacia pontifícia não nasce da busca por vantagens políticas. Pelo contrário, ela brota de uma visão moral e espiritual da história, na qual o diálogo prevalece sobre o conflito e a consciência sobre interesses imediatos.

Segundo ele, a ação diplomática da Igreja é expressão da sua própria catolicidade e está animada por uma urgência pastoral. Assim, a Santa Sé escolhe frequentemente o caminho silencioso e humilde da palavra, confiando na força própria da verdade ao longo do tempo.

Nesse sentido, destacou que, ao longo de dois séculos, o Brasil não encontrou na Igreja uma potência estrangeira, mas uma companheira de viagem, atenta às feridas sociais, aos desafios educativos e à promoção da justiça e da paz.

Um compromisso renovado com o futuro

Dirigindo-se de modo especial ao povo brasileiro, o cardeal Parolin ressaltou sua profunda marca cristã, a devoção mariana e a capacidade de atravessar provações históricas sem perder o sentido da alegria e da solidariedade. Apesar das transformações políticas e sociais vividas ao longo do tempo, afirmou, a relação com a Santa Sé permaneceu ancorada na centralidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus.

O secretário de Estado sublinhou ainda o significado de celebrar o bicentenário em uma basílica dedicada à Mãe de Deus. Para ele, sob o olhar maternal de Maria, a diplomacia se torna exercício de escuta, cuidado e paciente tecelagem de laços. Recordou, nesse contexto, a profunda devoção do Brasil a Nossa Senhora Aparecida, bem como as peregrinações ao país de São João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

Ao concluir, o cardeal convidou a olhar para o passado com gratidão, para o presente com responsabilidade e para o futuro com esperança. Em um mundo marcado por conflitos e novas formas de pobreza, afirmou, a missão da Igreja e o serviço diplomático não podem prescindir da busca sincera da paz, dom de Deus e fruto da justiça.


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